As remessas, Angelo Ishi e os engenheiros transnacionais

Eliezer Batista

Eliezer Batista o engenheiro do Brasil

Como sempre, estava pesquisando na internet e achei o termo “Transnacionais” num paper do Angelo Ishi (pensei que fosse Angelo Ishii), apresentado na “Joint Conference on Remittances”, 12-13 de setembro de 2005, ADB, Manila, Filipinas.

Em inglês, o título da apresentação é:
REMITTANCES FROM JAPAN TO BRAZIL: TRANSNATIONAL CONNECTIONS OF “DEKASSEGUI” MIGRANTS.

Quem não é do Japão, precisa conhecer Angelo Ishi. Vale a pena descobrir sobre o professor, pois considero um dos poucos brasileiros no Japão que impõe respeito perante a sociedade japonesa. As suas opiniões e estudos são amadas ou odiadas, mas muito respeitadas entre os intelectuais e políticos no arquipélago. Sua fala calma, tem a força de um trovão, que se faz ouvir a quilômetros de distância. Infelizmente, Ishi não é adepto as novas tecnologias, ainda não tem Twitter, onde poderia divulgar suas opiniões no meio digital. Quem sabe lendo isso, Ishi comece a fazer um podcast talvez.

Voltando ao paper, achei interessante que a ADB (Asian Development Bank), logo acima do título, tenha escrito de forma explicita que as visões de Ishi, não são necessariamente as mesmas que a deles. Ok! Você convidaria alguém para palestrar, que não tivesse a mesma visão que a sua? (Só se esse palestrante fosse muito bom mesmo hehe)

A palavra “Transnational” que traduzo de forma livre para “Transnacional”, foi o que me chamou atenção. E, se foi escrita por Ishi, valeu-se de alguma pesquisa. Já vi alguns artigos de Iida, Kajita e Ouchi. Mas, há pouco material em português. Achei bastante em espanhol. Portanto, não sei a terminologia correta, se alguém souber, por favor, comente.

Ishi cita que o termo “Dekassegui”  foi incluído no dicionário Houaiss como “Migrantes brasileiros no Japão”. Mas, muitos migrantes não gostam do termo, considerando pejorativo. Que tal este “novo”, “Transnacional”?

O termo “Dekassegui”  no Japão, surgiu depois do final da segunda guerra mundial, quando iniciou-se o milagre econômico do país. Era dado as pessoas que saíam de lugares agrícolas, como Hokkaido (Norte) e íam para regiões como Tokyo e Osaka para trabalhar, principalmente no setor de construção.

Em kanji 出稼ぎ, 出 (De) – vem do verbo sair, e 稼ぎ (Kassegi) – significa juntar dinheiro. Entnao seria sair para juntar dinheiro?

Mas juntar dinheiro para quê?

A grande maioria dos brasileiros que vieram para o Japão no início do movimento “dekassegui”, tinham o sonho de comprar bens materiais, como casa, carro e abrir seu próprio negócio. Nascidos na década de 60 e 70, conviveram com as notícias do “boom” econômico vivido pelo Japão pós guerra, reconstruído com muito minério de ferro vindo do Brasil, através de contratos fechados com a Vale do Rio Doce.

O Japão devastado na guerra, aproveitou toda sua infra-estrutura e industria, antes ligada a armamentos, para produzir e exportar automoveis e peças, através de inúmeros portos, para os EUA e Europa, onde diversos países também viviam seu crescimento econômico.

Na década de 90, já havia notícias de brasileiros conseguindo realizar sonhos “dekasseguis” nos EUA. Portanto, não era algo novo sair do país e tentar a vida no exterior. Junte-se a isto, a oportunidade de conhecer a terra dos ancestrais e escapar das constantes crises monetárias vividas no Brasil.

Neste início, famílias foram separadas, tanto na saída do Brasil, vindo somente o cônjugue, como dentro do Japão, quando os homens iam para as fábricas do setor automobilístico e mulheres iam para as do setor eletrônico, as vezes em cidades distantes ou mesmo trabalhando em turnos diferentes.

As palavras nesta época eram saudade e poupança. Para a saudade, haviam dois remédios, as cartas e ligações internacionais. Para a poupança, tempo era dinheiro, quanto mais horas trabalhando e “juntando”, mais rápido seria a volta ao Brasil.

Como a vida era limitada a trabalho, saudade e poupança, faltou espaço para família, cultura e educação. Estas duas últimas, citadas em diversos artigos atuais, relatando problemas mas poucas soluções.

A saudade foi diminuindo com o surgimento de inúmeros serviços direcionados a esses “Transnacionais”. Importação de roupas, alimentos e bebidas brasileiras, jornais em português, ligações telefônicas acessíveis, baladas e remessas por bancos brasileiros. Com isso, a vida ficou mais fácil no país dos kanjis. As escolas brasileiras “aconteceram” para suprir a demanda das famílias que se formaram no Japão e acabaram também ajudando na vinda das crianças, as vezes sozinhas estudando no Brasil.

Ishi afirma que em 2005, as remessas dos brasileiros no Japão para o Brasil, eram de US$ 2 bi, com contribuição de US$ 250 milhões em taxas aos governos do arquipélago e no mínimo US$ 350 milhões em gastos com ligações internacionais. A média dos mais de 33 mil correntistas do Banco do Brasil era de US$ 25 mil, o que dava um total de US$ 850 milhões.

Ishi, mostra o crescimento dos migrantes brasileiros no Japão, de 176.440 em 1995 para 286.577 em 2004. A teceira maior comunidade de estrangeiros no país. Acrescenta que esse número poderia ser maior, pois ainda havia muitos descendentes da primeira geração que não contavam como migrantes e tinham nacionalidade japonesa. A maioria dos que vieram no início eram homens, solteiros, economicamente ativos, entre 20 e 39 anos, vindo a equilibrar-se em 2003, quando haviam 151.136 homens e 123.564 mulheres. Devido ao crescente número de pedidos de visto de residencia permanente, ele pergunta se poderia trocar o termo “Dekassegui” para “Imigrante”.

Voltando ao tema “Remessas”, Ishi comenta que o Banco do Brasil detinha a maior parte do mercado, mas que dois grandes bancos brasileiros haviam iniciado suas operações. Bradesco e Itaú.

Ishi menciona a capanha, “Seguro para quem envia, fácil para quem recebe” e “A maneira mais simples e rápida de enviar segurança”. Nesta época, metade das remessas eram feitas em quantias de US$ 500. E, enquanto que apenas 2% das remessas a partir dos EUA e Europa superavam US$ 1.000, no Japão, havia chegado a 19%.

Ishi também cita dois veículos de mídia comunitários para mostrar que haviam duas tendencias na comunidade, a dos que investiam no futuro e os que preferiam aproveitar os bens materiais disponíveis apenas aos que vivem num país de primeiro mundo.

Menciona uma pesquisa da IDB Survey, onde aparece o dado que 46% das remessas serviam para gastos diários e 54% para investimentos. Indicando que mais da metade dos que recebiam as remessas não dependiam desta fonte para sobreviver.

De acordo com Ishi, metade dos que responderam que dependiam das remessas para sobreviver, eram de regiões menos favorecidas no Brasil. Enquanto que nas cidades mais desenvolvidas, quase a totalidade não dependiam das remessas.

Ishi, cita também o fato que muitos dos “dekasseguis” conseguiram realizar o sonho do carro e casa própria. Chegando a inflacionar o preço de imóveis em pequenas cidades como Maringá/PR. Na sua percepção, a época, era preciso ajudá-los a atingir o terceiro sonho que era, ter seu próprio negócio. Pois, de acordo com a mesma pesquisa da IDB Survey, 40% dos respondentes disseram que pretendiam ter seu próprio negócio.

Ishi comenta ainda um fato interessante, em 1994 ele conduziu uma pesquisa entre os clientes do Banco do Brasil, com o nome de “Realize o seu sonho”, onde 3.293 pessoas responderam um questionário, e 34.86% responderam que desejavam abrir seu negócio no Brasil, e apenas 2.01% no Japão. Na pesquisa mais recente do IDB Survey, lançar o negócio no Japão subiu para 14% e apesar de insignificante, atentou que 1% desejavam empreender em outros países. Cita o caso de uma família de “dekasseguis” que investiu em um resort em Bali, Indonésia. Correlatando que muitos brasileiros em sua estadia no Japão, viajam para diversos países asiáticos e podem se interessar em se instalar nesses locais.

Dos 24% que responderam não se interessar em empreender, Ishi acredita que talvez sejam por dois motivos. Pessoas que estão conformadas com as perspectivas de longa estadia nas fábricas do Japão e os que desejam reiniciar suas vidas no Brasil como empregados, sem assumir riscos.

Havia ainda os 21% dos que responderam não saber (sem respostas) sobre abrir um negócio. Neste grupo talvez estejam incluídos as pessoas que não sabem quando e como voltar ao Brasil. Alguns poderiam querer abrir um negócio, mas talvez tenham medo da possibilidade de perder tudo (todas as economias que conseguiu no Japão).

Um grande medo para os potenciais empreendedores, de acordo com Ishi, seria a instabilidade econômica do Brasil. E um outro dilema seria manter o mesmo nível de renda que tinham no Japão, no seu retorno a terra natal. O que para ele, seria impossível, encontrar um trabalho ou empreender tendo mesmo rendimento, devido a grande diferença nos custos de vida nos dois países.

Ishi encerra com a frase: O desejo de se tornar “Transnational Entrepreneurs” ou na tradução livre “Empreendedor Transnacional”, mantendo um estilo de vida entre dois endereços em dois países.

Todos estes dados de 2005, mostravam uma tendência que foi completamente balançada em 2008… (estourou a bolha do milagre econômico americano).

Os resultados, todos acompanharam pela internet. E o Brasil, se tornou o destino dos “dekasseguis” do mundo. Chegando até a barrar Haitianos este ano.

Em 2005, ano em que Lula veio ao Japão e visitou a Expo-Business, deve ter notado a grande quantidade de famílias e crianças visitando a feira. Neste mesmo ano, o BID, investiu no projeto “Dekassegui Empreendedor” no Brasil. Talvez poderia ter investido no treinamento dos empreendedores no Japão, antes do retorno.

Fato concreto, quando a família tem filho(s), suas despesas aumentam. Aumenta-se também o risco para empreender. E se caso algo der errado, a criança vai sofrer sem ter como ajudar. Diferente dos casos de famílias pobres no Brasil, que não tem nada a perder, não tem comida, casa, inclusão social. Onde as crianças acabam ajudando, para sobreviver.

Os filhos de “dekasseguis” tem acesso aos mesmos benefícios que os filhos de japoneses. Vivem num país de primeiro mundo. Poderiam estudar exatas, principalmente engenharia industrial, que só perde no mundo para a Alemanha.

O projeto de US$ 3 milhões entre BID e Brasil, foi interessante para mostrar que “Dekassegui” combina com “Empreendedor”. A partir de agora, com o crescimento econômico do Brasil, as vesperas da Copa e Olimpíadas, é necessário realizar um novo estudo, para entender as demandas dos “Transnacionais”.

Essas pessoas que saíram de sua terra natal, trabalharam e viveram culturas diferentes, podem ajudar no crescimento dos seus países de origem. Seja na forma de “Empreendimentos Transnacionais” ou com seus filhos “Transnacionais”.

Um caso de sucesso para se espelhar é de um brasileiro que viveu por muito tempo na Europa, aprendeu a vender e amar seu país natal, e hoje é o 8o. homem mais rico do mundo. Ele está realizando “Empreendimentos Transformacionais” no Brasil e no início, só precisou de coragem e empreendedorismo para chegar onde está. Seu pai, outro que transformou o Brasil, estudou engenharia.

Três palavras importantes para o futuro dos “Transnacionais”, engenharia, empreendedorismo e coragem.

Fontes: www.wikipedia.org, www.iadb.org

O que o Brasil e a família Schincariol ganham com a Kirin?

kirin

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O mercado de M&A (Fusões & Aquisições) global, se agitou no início de agosto, devido a compra da número dois no ranking brasileiro de cervejas. Algo que já vinha sendo discutido a meses. Mas, o que poucos esperavam era o nome Kirin aparecer como a compradora. Nada tão absurdo para analistas atentos, se contarmos os fatores negativos do mercado japonês em geral. Com o yen supervalorizado, consumo e população em declínio, além das catástrofes ocorridas esse ano, acredito que este é apenas o começo de um caminho sem volta. As empresas japonesas tem duas alternativas para sobreviverem, comprar posições ou iniciar operações no exterior a partir do zero.

Muitos acionistas da Kirin devem ter achado caro o valor pago pelo controle da Schincariol, o que se notou devido a queda das ações, um dia após o comunicado oficial da empresa. Esses acionistas, talvez ainda não entenderam que a compra de ativos no exterior é uma questão de sobrevivência, e não de crescimento, pois o mercado de cervejas está se consolidando, depois dos movimentos dos concorrentes globais nos últimos anos. Após, perdas anuais e a tentativa frustrada de união com a Suntory (Mais antiga distribuidora de bebidas do Japão) e a troca de comando no alto escalão da Kirin, nada mais correto que ir as compras no exterior, pois o objetivo da companhia é chegar em 2015 com faturamento de R$ 60 bi, com 30% vindo do exterior. Já estão sendo feitas várias operações na Ásia e Oceania, para se chegar a liderança nesses mercados e impedir a ação dos grandes players globais, que já dominaram a Europa e Américas. Essa ação no Brasil, não fazia parte do plano estratégico principal, mas é uma oportunidade única de ter uma fatia do mercado onde começar do zero, demandaria muito mais tempo e dinheiro. E o Brasil, é o trampolim para se chegar a outros países da América Latina.

Poucos brasileiros conhecem a marca japonesa Kirin, parte do Keiretsu Mitsubishi e patrocinadora oficial das seleções de futebol nipônica. Dentre essa minoria, estão os “Dekasseguis”, que hoje moram no Brasil. E também os brasileiros no Japão, uma rede “Transnacional” com mais de 1 milhão de pessoas, que já experimentaram os produtos da empresa aqui do outro lado do mundo. A marca Kirin Ichiban Shibori, mais vendida no arquipélago, é uma das preferidas dos brasileiros que aqui vivem. Ela tem boa avaliação no Brasil, e está acima da média das “premium” nacionais, de acordo com os comentários de usuários do site Brejas (http://www.brejas.com.br/cervejas/japao/kirin-ichiban/).

Mas os brasileiros conhecem a força de produção e distribuição da marca de Itu. E, a partir desta força, que a Kirin tem como aumentar sua participação no mercado brasileiro. Com seu know-how centenário, pode agregar sua tecnologia e distribuir mais produtos de qualidade ao consumidor. E pode ir além do setor de bebidas, pois o conglomerado japonês, tem diversidade de operações no setor químico e alimentício. Com grande investimento em P&R (Pesquisa & Desenvolvimento).

Distribuição é a palavra-chave para esta empresa japonesa, que coloca nas gôndolas do arquipélago as marcas Heineken, Budweiser e Johnnie Walker Black Label, além da famosa água mineral Volvic. E, como o seu slogan diz, “Good taste makes you smile”, o Brasil ganha uma empresa que deseja que você atinja um nível de alegria, experimentando produtos com sabor superior. E, somente para completar o título, a família Schincariol vai ganhar muito se souber sorrir e não fazer cara feia para o dinheiro e a tecnologia dos japoneses.