R$ 40 bilhões em impostos e você nem precisa falar japonês

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Agradeço muito a oportunidade de fazer parte desta história. Ao povo, a terra, ao sistema capitalista. Mas quem vai agradecer a contribuição dos “Transnacionais” a economia do Japão?

No início do século XX, o Brasil e os brasileiros abriram as portas para receber os “Dekasseguis” japoneses, que se sacrificaram para viajar para o outro lado do mundo na busca de terras para plantar e trazer os frutos ao Japão. E desde então, já no século XXI, o Japão ainda não sabe o que fazer com alguns frutos da terra onde tudo dá.

Os japoneses que escolheram o Brasil para viver, construíram a imagem do Japão por todos os lugares em que criaram “colônias”. São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Pará e Minas Gerais. Em tempos mais recentes, Rondônia, Brasília, Bahia, Tocantins e demais estados. Hoje, são 1.5 milhão de “Nikkeis” espalhados por diversas cidades brasileiras e mais de 200 mil no Japão.

Junte a estes 1.7 milhão de pessoas, os admiradores da cultura japonesa e o resultado são milhões de pessoas consumindo algo relacionado a terra do sol nascente. Não foram as leis e incentivos financeiros e nem mesmo subsídio a educação que fizeram estes “Transnacionais” chegarem a 5a ou 6a. geração de descendentes. Foi algo muito maior, foi o reconhecimento do trabalho vindo do povo brasileiro.

Há também, outros “Transnacionais” que merecem reconhecimento, estes vivem aqui do outro lado.

Ao menos um do setor automotivo, tem seu nome gravado na história recente do Japão, apesar de ter cortado mais de 20 mil postos de trabalho nas 5 fabricas fechadas no início da sua administração. Um contraste em relação aos patrícios que vieram para o Japão aumentar os números dentro das fábricas.

Carlos Ghosn – Filho de imigrantes libaneses, nasceu em Guajará-Mirim/RO, viveu no Rio de Janeiro, estudou no Líbano e se formou na França. Eleito o líder empresarial mais admirado no Japão, por sua conquista, a virada financeira da Nissan que tinha prejuízos anuais havia 7 anos e dívidas de US$ 20 bi até 1999. Em 18 meses tornou a empresa lucrativa, gerando US$ 6 bi de lucro para os caixas da sexagenária montadora do Japão na época.

Em 2009, enquanto muitas industrias automotivas estavam no vermelho, a Nissan obteve lucro, e ele recebeu um pedido do Presidente Obama, para que administrasse a GM, oferta que declinou pois seu foco era o crescimento da Nissan Renault. O que poucos comentam é o fato dele ter feito um outro “Turnaround” em 2 anos de administração nas operações da Michelin no Brasil, quando tinha apenas 30 anos. Implantou um sistema “cross-cultural” de boas práticas de gerência dentro da empresa, onde havia pessoas de diversas nacionalidades e de diferentes setores tomando decisões. Sua frase na época “Você aprende com a diversidade, mas é confortado pelo comum”. Depois, em 1988 implantou o mesmo sistema como CEO da Michelin Norte America e dobrou os números da empresa com suas acões.

A partir de 1996 outro “Turnaround” na francesa Renault fez com que Louis Schweitzer (Chairman, Renault) reconhecesse o trabalho de Ghosn e investisse US$ 7 bi (44.4% das ações da Nissan) para que ele fizesse o “turnaround” na Nissan. E investiu mais, em 2005 fez com que ele se tornasse um dos poucos CEOs de duas empresas globais, Nissan e Renaut. Este reconhecimento, feito em 1999, vale hoje mais de US$ 37 bi, devido a valorização da Nissan.

As principais ações de Ghosn na Nissan foram, venda de metade dos 1.100 investimentos em ações que a Nissan tinha nos parceiros de “Keiretsu” e implantação do inglês como língua oficial para setores chave na empresa. Depois de 10 anos, Uniqlo e Rakuten são uns poucos exemplos de empresas japonesas que enxergam o caminho multicultural e seguem o exemplo do “Keiretsu Killer”.

Some US$ 30 bi, aos US$ 20 bi de dívidas pagas, mais os lucros da Nissan nos 10 anos depois dele se tornar CEO e o plano de lucro até 2017, quanto o país não ganhou e vai ganhar em impostos depois que Ghosn veio para o Japão?

Ghosn ainda investe em mais produção dentro da ilha, diferente de muitos administradores que desejam levar suas produções para fora, devido a valorização do yene. Olhando estas ações, percebemos que os problemas do país são maiores que os desastres naturais. Há ainda, dificuldade de reconhecer a contribuição dos “Transnacionais”, sistema educacional unicultural e demora em mudar o sistema de administração de empresas e órgãos governamentais, que insistem em dar valor a números e gráficos, ao invés de utilizar relacões sociais e multiculturais. E ainda, mantém-se o hábito de esperar o barco afundar para poder consertar o casco furado. No caso da Nissan, foram 7 anos com vazamento.

Trabalhei 15 anos em fábricas no arquipélago e convivi com operários japoneses que trabalharam nessess 50 anos depois da guerra, batalhadores, enfrentaram carga horária pesada, trabalhos inóspitos e não mediram esforços para reconstruir o Japão. E parte destes trabalhos, a partir dos anos 90, foram passados para os “Transnacionais”.

Há alguns fatos descritos em pesquisas feitas na cidade de Toyota, onde os administradores de pequenas e médias empresas destacaram os motivos que fizeram utilizar de trabalhadores brasileiros:

  1. Tinham respostas rápidas a flutuações de mercado (demitir/contratar a qualquer hora)
  2. Havia medo de aumentar o número de trabalhadores efetivos (leis rígidas no caso de demissão)
  3. Tinham menor custo (impostos trabalhistas)
  4. Trabalhadores japoneses temporários não iam trabalhar (sem contrato não há compromisso)
  5. Trabalhadores recém formados não iam trabalhar (jovens com pouca responsabilidade)

Com a queda gradativa da população, a globalização e o crescimento de economias emergentes, ainda falta agilidade para os administradores acompanharem todas essas mudanças. Visão global, sem ser paternalista, é algo complicado por aqui. Mas um dia quem sabe, enxerguem além dos números. Mas já que o assunto são números, vou expor alguns abaixo.

Nos 20 anos de movimento “Dekassegui”, muitas estatísticas foram acumuladas. Pelos números do Ministério do Trabalho do Japão, haviam sido registrados cerca de 40.000 a 60 mil trabalhadores latino americanos entre 93 a 2006. Estes números dão um salto a partir de 2008, algo estranho, pois foi o ano em houve diminuição na população de latino americanos no Japão. Talvez tenham melhorado o sistema de cadastramento, pois em 2008, já eramos 99.179, 104.323 (em 2009), 116.363 (em 2010), 116.839 (em 2011).

Porém, pelos números do Setor de Imigração, haviam sido registrados 56.429 brasileiros em dezembro de 1990. Já em 1991 o número saltou para 119.333 e ultrapassou os 200 mil em 1996. Sabemos também que em 2005, haviam mais de 300 mil brasileiros residindo no Japão. Com isso, os valores abaixo podem ser bem maiores. Mas, utilizando cálculos mínimos, quanto os brasileiros já contribuíram financeiramente para a economia do Japão?

Até 2013, serão ¥ 2 trilhões, ou mais de R$ 40 bi.

Sim, ganhamos investimentos a partir da crise de 2008.

Lembram-se da famosa ajuda de retorno, quando o Governo Japonês, emprestou mais de ¥ 6 bi, para que os brasileiros comprassem passagem de retorno. E o Ministério do Trabalho se espantou também com a multiplicação de pessoas nos centros de procura de emprego (Hello Work). Muitas reportagens de uma revista gratuita na época, contribuíram para que os brasileiros procurassem ajuda nesses locais. Em medida de emergência, o governo implantou um programa em 2009 chamado (Treinamento para Preparação ao Emprego) “就労準備研修”, com orçamento de ¥ 1 bilhão e 800 mil, para preparar 5.000 trabalhadores nikkeys, com objetivo de dar 181 horas de aulas por pessoa para o aprendizado da língua japonesa e aulas tecnicas para formar estrangeiros para o setor de serviços.

Acredito que a intenção foi boa, pois o maior problema na comunidade brasileira continua sendo a baixa qualidade educacional. Mas, “As coisas aconteceram“, não houve tempo de planejar, como a comunidade de “Transnacionais” não foi planejada. Gostaria que o país perguntasse aos brasileiros se eles realmente queriam ¥1.8 bi para estudar.

Pergunta simples: – Qual o motivo de vir ao Japão? (Estudar ou trabalhar)

Se for a segunda opção, algo está errado. Com ¥ 1.8 bi, ou R$ 40 milhões, não havia outra alternativa?

Primeiro, precisa haver motivação para as pessoas estudarem. É preciso aprender a reconhecer a contribuição financeira e as milhares de horas trabalhadas, que mesmo os japoneses sexagenários, ainda não tem. É preciso entender as necessidades e planejar, antes de implantar ações que mexem com a vida de milhares de pessoas.

Hoje eu olho as revistas gratuitas com centenas de vagas de empregos urgente.

Mas as vagas são para fábricas, os 5.000 beneficiados com estudos, não foram treinados para conseguir algo melhor, talvez no setor de serviços?

E os ¥ 6 bilhões que foram emprestados para as pessoas retornarem ao Brasil, já foram pagos?

Não tem como eles voltarem para trabalhar e pagar esta dívida aqui?

Porque para pagar impostos, durante 20 anos, nunca me pediram para estudar japonês. Tem até tradutor para me ajudar.

Fontes: Wikipedia.org, Sites governamentais e links nas palavras do texto acima.

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