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Problemas do Brasil

Nasci nos anos 70, no interior do Brasil, numa época em que não haviam muitos problemas na região. Tive uma infância feliz, cheia de experiências junto a natureza e com a grande família dos meus pais.

Nos anos 80, quando o Brasil começou a passar por transformações políticas, a região do Cerrado vivia o início do projeto Prodecer, algo que eu não acompanhava na época. E nem sabia que foi realizado em conjunto com o Japão.

Nos anos 90, já no Japão, comecei a enxergar melhor o Brasil, seus problemas e suas riquezas. Descobri também sobre a influência do Japão no Brasil nas décadas anteriores. É muito gratificante ter a oportunidade de viver num país com altos níveis de edução, cultura e segurança. Algo bem distante para a maioria da população brasileira.

Por ser estrangeiro, enxergo o Japão de forma diferente. E em paralelo, vejo os problemas do Brasil como oportunidades para os japoneses. É incrível poder transitar entre duas culturas tão distantes e próximas ao mesmo tempo.

O Brasil tem apenas 519 anos, algo que apenas 1 empresa no Japão o supera em quase 1.000 anos. E há diversas outras com 100, 200, 400 anos.

O maior problema do Brasil é uma oportunidade para o Japão. O Brasil tem tudo o que o Japão mais precisa, é um país jovem, com diversidade, riquezas naturais, extenso e aberto a novas culturas. O Japão já provou ao Brasil que pode melhorar o país, Prodecer e Distância Econômica são dois exemplos que mudaram a agricultura e a logística mundial.

Hoje, o maior problema do jovem Brasil é fazer a estrutura para crescer no longo prazo. Uma estrutura sólida para crescer de forma exponencial, algo como uma plataforma para lançamento de foguetes. O que a Korea e a China fizeram aqui do lado. E o que o Japão começa a perder pelo formato dos Keiretsu.

Formato das empresas japonesas

Japan Inc dinoslender
Illustrative Image

As empresas japonesas tem histórico de foco no longuíssimo prazo, com diversas empresas centenárias e a mais antiga do mundo, Kongo Gumi, fundada no ano de 578 por um imigrante coreano.

A Kongo Gumi é um exemplo de empresa familiar que durou até 2006, quando foi comprada pela Takamatsu, quando tinha apenas 1.428 anos de existência. Como ela continua com o mesmo nome, está com 1.441 anos hoje.

Depois das empresas familiares, vieram os Zaibatsu, formados por corporações que tinham ligações com a família imperial, dentre as mais conhecidas, Sumitomo e Mitsui. Após a II Grande Guerra, os Zaibatsu se transformaram em Keiretsu, como exemplo a marca Mitsubishi.

Nesse período, surgiram as campeãs nacionais do Japão, algumas “startups” que trouxeram tecnologia para a manufatura e foram impulsionadas na Bolsa de Valores de Tokyo (TSE). O caso mais conhecido, Toyota.

Tudo isso aconteceu com ajuda interna, seja do governo ou dos investidores japoneses. Mas em 1999, um brasileiro foi responsável por iniciar um novo modelo de negócio num Keiretsu japonês, a Nissan. Transformou o modelo em “Alliance”, em conjunto com a Renault, que comprou mais de 40% das ações da corporação japonesa. Chegou até 2017, colocando outro braço de um Keiretsu na aliança, a Mitsubishi Motors.

Joint Venture e Co-Management

Imigrantes desempenham papéis importantes na transformação de mercados por terem visão diferenciada. Um imigrante coreano fundou a empresa mais antiga em atividade no Japão, um filho de imigrantes libaneses transformou o modelo de Keiretsu, e um filho de imigrantes coreano fundou a empresa mais disruptiva em atividade no arquipélago.

É interessante notar as raízes de empreendedores que mudam histórias de países e se arriscam nos seus negócios. A Softbank, fundada em 1981 por Masayoshi Son, tem plano de negócios para 300 anos, é até pouco, comparado aos 1.441 anos da Kongo Gumi.

Vendo tudo isso, quais empresas e empreendedores irão mudar o Brasil? A Softbank já está na região, investiu e irá investir nas startups que irão mudar algo na América Latina. O comandante desses investimentos é um imigrante colombiano. E como é o modelo de negócios deles?

De forma simples, é ter 30% de participação nos líderes globais da revolução digital. E 100% quando encontrar um líder monopolista, caso da ARM, que domina mais de 90% do design de chips no mundo.

De 1981 a 1996 a Softbank investia em produtos físicos. Mas com a visão de revolução digital na internet, resolveu trazer ao Japão a Yahoo, e formou uma JV com nome de Yahoo Japan. Entrou em telefonia, banda larga, energia e provou que exponencializa o valor de seus investimentos.

Formou então o Vision Fund em 2016, um fundo de $100B para impulsionar o crescimento dos líderes mundiais na revolução digital. E em apenas 3 anos já investiu em 75 startups. Enquanto os Keiretsu investem de forma desordenada e sem foco, a Softbank segue seu caminho de 300 anos.

Brasil do futuro

Com a previsão do Brasil superar a economia do Japão em 2050, qualquer Keiretsu ou grande corporação japonesa precisa pensar melhor a sua tese de investimento no Brasil e América Latina.

Se na área de revolução digital a Softbank está bem posicionada, sobra a área de infraestrutura e M&A para o resto das corporações japonesas. E se demorarem muito, os outros países chegarão na frente.

As relações de amizade do Brasil com o Japão são bem próximas, as comunidades Nikkeys nos dois países são um fator relevante para pensar no futuro, o que falta para uma maior aproximação e cooperação?

Uma iniciativa interessante seria utilizar o modelo Softbank de JV para uma gestão cooperada em resolver problemas do futuro das grandes e PME’s japonesas que enfrentarão problemas de sucessão que ocorrerão nos próximos 10 anos. Jorge Paulo Lemann poderia ser um bom mentor para internacionalizar a gestão das empresas japonesas. E utilizar esse fator para entender melhor as oportunidades no Brasil e America Latina.

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